Quando decidi dar à luz este blog escolhi um nome: Jacarandá em flor. Uma árvore que parece não existir ao longo do ano, mas... quando desperta dá uma flor linda. Dá-se ao luxo de colorir ruas, alamedas...
Depois dei um título ao blog: Um blog feito de pensamentos, observação, sentimentos e... poesia para todos.
Parece-me que não tenho faltado à promessa. Escrevo sobre o que me vai cá dentro e com uma luz positiva (ainda que relembre pessoas que amei e perdi). No meu dia a dia não gosto de pintar a vida nem de negro nem de cinzento. Procuro sempre a cor, tal como o Jacarandá.
Mas hoje decidi falar mal. Estou farta de ser "romântica": NÃO SUPORTO MAIS os gajos que fazem parte do Governo do meu país. Uma cambada de imbecis que subiram na política pelos meios menos éticos. Vigarices; troca de favores; mentiras! NÃO SUPORTO MAIS ver gente a passar fome e ter de ir aos caixotes do lixo. Muitas delas (EU TENHO VISTO!) de cabeça baixa pela vergonha e humilhação. Idosos que necessitam de cuidados médicos e medicamentos, mas... com as constantes reduções nas pensões já nem se dão ao trabalho de ir à farmácia aviar a fiado. Cá para mim, eles já nem se importam de tomar os medicamentos, pois sabem que estes IMBECIS os estão a matar diariamente com os agravamentos (e eles, os CRETINOS NOJENTOS a almoçar bem, vestir do melhor, andar em carros topo de gama e muitas, muitas outras mordomias que, se não tivessem chegado onde chegaram por serem desonestos e oportunistas, até nem saberiam comer de garfo e faca!).
Estou farta, fartinha. Vejo rostos tristes e gente a contar as moedas até para tomar um café (eu vi: num destes dias ao meu lado!). Eu gosto muito de ser portuguesa. Tenho o privilégio de viver num país bonito. Sempre que viajo, adoro chegar. Gosto da cor do céu do meu país. Gosto de valores da cultura portuguesa. Mas não posso suportar quem nos está a (des)governar.
Não sou única. E não resisti a transcrever uma crónica de António Lobo Antunes publicada há duas semanas numa revista semanal. ADOREI!!!!
Aqui vai:
Existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um
Colares Tinto ou um Mateus Rosé?
Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas
crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe
governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco
como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes
acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a
encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da
América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que
engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem?
depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e
estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um
tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que
levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos,
de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que
os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz?
Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser
criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não
sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um
Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É
que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes
fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem
Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e,
sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar
de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a
ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de
palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a
gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não
têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou
- Não pretendo esconder nem ocultar
apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado
compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras.
Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura
maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por
inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos
de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda
formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se,
aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz
parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas
responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser
tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não
crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra
na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com
dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No
fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão
amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o
emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha,
destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de
os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a
infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos
restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa
impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a
orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não
podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com
a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos
não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã.
Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os
protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma
tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os
telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos
deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não
esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no
casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele
(ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa)
encorajemos estes minúsculos heróis com
um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES, Crónica publicada na VISÃO 1078, de 31
de outubro
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