sábado, 30 de junho de 2012

Alberto Caeiro



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me veem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé de uma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.



in "Guardador de Rebanhos"

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Um ano...

... passou. O primeiro ano da tua ausência. Passou rápido. Quase que nem dei por ele. Envolvi-me (ainda mais...) no trabalho e nas minhas múltiplas atividades. Mas em cada dia, tu tens estado na minha memória em tempo constante. Tenho-te pedido conselhos. Tenho-te feito confidências. Tenho chorado. Desculpa, por esta fraqueza. Lembro-me que (ainda no início das nossas peregrinações ao hospital) me disseste que nunca deveria chorar. Deveria ser forte. Contrariada, prometi-te que o faria. Mas não. Chorei e ainda choro. Baixinho. Em silêncio e... principalmente com o cuidado de saber que estou só.

Adoravas flores. Ficavas felicíssima quando tas oferecia nos anos, no dia da mãe e.. quando me apetecia. Hoje ficam aqui estas. São diferentes, eu sei! Mas lembrei-me de ti quando as vi e fotografei durante as férias.

 Partiste às 3:40. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Porque é que se blogga...?

Esta é uma pergunta que já fiz, mais de uma vez, a mim própria. Fi-la antes de ter começado este Jacarandaemflor. Quando me decidi por ele foi precisamente com o objetivo de ir escrevendo pensamentos que me vão surgindo;  observações de factos que me chamam a atenção; partilha - ou não... - de sentimentos. Quanto à poesia... bem: na forma de transmissão de tudo o resto. Longe de mim fazer deste blogg uma coletânea literária. O que não me impede de transcrever ou mencionar textos e autores. Mas... não tenho pretensões literárias nem intelectualóides (designação que costumo usar para alguns...). Nada disso!


Lembro-me que, quando era adolescente, me ofereceram um diário. Bonito: de capa em pele vermelha escura e com páginas grossas amareladas. Tinha a particularidade de ter um pequeno cadeado com uma chave. Só por isso achei, desde logo, que era um "caderno para escrever segredos". Levei muito tempo até que conseguisse escrever nele qualquer coisa. "Vou escrever segredos...? Mas que segredos tenho para os deixar fechados...? E se alguém descobre alguma coisa de errado...?". Foi uma batalha dura enfrentar aquele livro que se fechava à chave. O diário


Mas o medo passou e um dia lá comecei a escrevinhar qualquer coisa. Sempre fechado. Muitas vezes eram desenhos. Mas... fechado. Para além de fechado... muito bem guardado. Tão bem ou tão mal que acabei por me esquecer dele. Uns anos depois descobri-o e... achei imensa graça. 
Foi a pensar nesse meu secreto diário (!!!) que achei que podia contar "coisas" num blogg. Pois se é um blogg... já não é secreto. O que me deu mais satisfação. Então optei: comecei um que por vezes dou a conhecer o conteúdo a quem tiver pachorra para ler e... outras vezes fica só para alguns... 
É uma "moda"...? Não sei. Se o é... tem muitos aderentes. Há tantos bloggs...! Uns são absolutamente fantásticos pelo conteúdo, apresentação e finalidade; outros são esteticamente giros; outros têm temas do "arco da velha"; enfim, há de tudo. Por isso mesmo há que respeitar. Ninguém deve querer copiar ninguém. Nem ninguém deve querer ser o único blogger... Há espaço para todos. Sejamos criativos. Não presunçosos e... vivamos a escrita. 

Aqui deixo um pensamento de Leonardo da Vinci que me merece muita atenção:

Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o Céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe.


sábado, 2 de junho de 2012

Celebremos o Japão...


... em Belém, neste dia chuvoso, nublado e abafado. Relembremos a História. Os Descobrimentos. A chegada dos portugueses ao Oriente. Atentemos na forma como éramos vistos. E agora... como seremos...?

Os Biombos Namban

Os biombos Namban contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão de pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor de tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Uma rua...

... uma cidade.


Cada rua tem uma cidade. Cada cidade tem ruas. Tem casas. Algumas: bem bonitas. Umas estão bem conservadas. Outras, nem tanto. Mas eu gosto destes dois "locais" em cidades diferentes. 


Acrescente-se um pouco de música...







Junho chegou...

... chegou bem depressa. Quase que nem dei por ele entrar. Não se fez anunciar. Mas... eu abri a porta e a janela da minha vida.
Sempre gostei do mês seis. Não sei bem porquê. Bem... se calhar até sei: o verão a aproximar-se; o calor (que eu reclamo todos os dias mas que gosto... muito!) a fazer sentir-se; a minha cidade em festa; as pessoas bem dispostas; as idas à praia; as férias. 
Gosto de fazer férias nesta altura do ano. É como que um intervalo: já trabalhei cinco meses, agora descanso ("descanso"... o que é isso...?) umas semanas e depois: volto ao trabalho. Com mais energia e alegria. Sempre foi assim (excepto no ano 2011).
Ligo junho a:
Estar não só com os amigos, mas também com a família.
Conversar.
Ler os livros que, ao longo do ano, foram sendo "guardados" para serem devorados agora...
Também se devoram:
À beira mar. Na minha praia...
Ao fim da tarde, uma ida até ao FDMJDC... Os melhores de Lisboa:

Depois... os cheiros de junho. O cheiro do "calor". O cheiro dos manjericos...
... o cheiro doce dos dias mais longos e lânguidos... Sorrimos mais. Estamos mais predispostos às saídas noturnas para passearmos pela cidade. E na minha cidade há festa. Muita festa. Uma das mais tradicionais são as marchas populares. E como cada bairro compete...!!!, É fantástico. Levam o desfile mesmo a sério. Dedicam-se a ele durante todo o ano. Levam-no a sério.
Nunca estive na Avenida a assistir. Mas já acompanhei pela televisão algumas vezes. Não é das festas da cidade a que mais aprecie. Mas as cores... são bonitas.

Creio que, por tudo isto, a minha cidade é "cantada" por muitos poetas e apreciada por muita gente de várias partes do mundo. Que bom.Sinto-me orgulhosa, vaidosa...
Bem-vindo junho!