...a postar um conto de uma autora muito conhecida de quem a conhece... Só isso justifica a interpretação da sensibilidade que a mim me toca.
Aquela Roseira Brava
Sempre que a Luizinha ia à fazenda da família (à qual
a avó chamava a nossa vinha) era para
ela uma festa. Quando chegava, largava o que quer que levasse na mão, abria os
braços como se quisesse voar, competir com os pássaros que voejavam em alarido
sobre as árvores e partia à desfilada pela ladeira que levava até à parte mais
baixa onde o milho crescia estirando ao sol as suas verdes lanças. Ficava a mãe
no cimo: Luíza, olha que vais cair!
Nunca caiu! Ia ver se já despontava alguma das sementes que costumava semear. Vinha
depois por outro caminho, descobrindo isto e aquilo, corria pelo campo fora
numa euforia de liberdade, explorando tudo o que no campo sempre há para ver:
pequenos insectos, pequenas flores, aromas diversos.
A fazenda era muito pequena também, no entanto tinha
cinco donos: cinco irmãos para quem a fazenda sempre tinha sido um foco de
discórdia. Luizinha era muito garota e isso ainda não a perturbava. O terreno
pouco mais era do que um quintal para cada um. Era pobre, pois nem sequer tinha
água potável, só aquela que a chuva lá deixava no inverno num poço quase vazio,
num charco de água barrenta com muitas rãs e algumas cobras de água. Mas tinha
várias árvores de fruta e alguma coisa que sempre se semeava. O terreno era
inclinado e no cimo havia a pequena casa que o seu pai construíra, rodeada de
oliveiras, pereiras e muitas ginjeiras; descia depois para um espaço plano,
seria aí que tinha existido a vinha? Agora nem sombra de parreira se espalhava
pelo chão, milho sim, agora tinha, planta alegre, com bandeirinhas que se
agitavam ao vento, planta que se aguenta bem em qualquer lado; sempre lá tinha
um espantalho, cabeça de vassoura, um casaco velho e um chapéu, afastava a
passarada que andava a comer todo o dia. Até à Luizinha metia medo.
Naquela altura tudo tinha encanto, alegria: era o copo
de leite ainda morno acabado de ser ordenhado, era o regar dos canteiros de
jarros e goivos, era o baloiço pendurado num sobreiro alto, aquelas pequenas
graças duma vida simples, despreocupada como só naquela idade é possível
existir, sem exigências, que era como então se vivia.
Luizinha gostava das frutas; o vermelho vivo das
ginjas os tons afogueados de outros frutos, amarelos uns, rosados outros. Havia
também o tempo dos malmequeres, dos goivos, que lá eram roxinhos, perfumados
mas humildes, como pedindo perdão por terem a cor da saudade e da tristeza.
Havia também, no caminho que Luizinha percorria todos os dias, uma roseira
brava de rosas com muitas pétalas, tronchudinhas com um perfume que já de longe
se adivinhava, eram de tom vivo, nem seriam, longe disso, das mais belas mas o
maior encanto era mesmo o perfume que nenhuma outra rosa tinha. Os espinhos
eram por demais acutilantes, assim se defendiam de quem as cobiçasse.
Lembras-te,
Luizinha, quando naquele dia em pleno agosto, com muito sol, perfume no ar, te
lembraste de colher algumas delas para levar a tua mãe que fazia anos nesse
dia? Como te atreveste a enfrentar aquelas lancetas que iam dilacerar as tuas
mãozinhas tão macias de menina? Enrolaste-as no bibe que vestias para as
proteger. Valeu-te pouco, como lanças que eram, se cravaram nelas,
esfarrapando, cortando, e tu com sangue escorrendo e as lágrimas abundantes
deslizando pelo teu rosto, os olhos alagados a transbordar, o bibe roto
ensanguentado só mesmo as rosas pareciam sorrir gloriosas nas tuas mãos
sangrentas. Tua mãe se zangou e muito, em desespero lançou as rosas contra a
parede e ali ficaram, meio desfolhadas, descoloridas e mortas no chão. Quantas
vezes te disse, Luíza, para não tocares naquela roseira? Vens bonita, não é?
Cheia de sangue, o bibe em farrapos, sempre me arranjas cada uma! Mãe, eu só
queria dar-lhe estas rosas, a mãe faz anos, não tinha mais nada para lhe dar e
também ninguém lhe vai oferecer alguma coisa… julgava que ficava contente…
A Luizinha chorou mais ainda, tinha dores nas mãos que
a mãe acabara de tratar, mas a dor maior, bem maior, foi ver as rosas meio
desfolhadas, perdida a cor mas das quais uns fiozinhos de perfume evolava ainda
levemente, foi a dor de ver que ela mesma tinha provocado o seu fim, um
sacrifício inútil, enquanto elas, naquela tarde luminosa e quente iam
oferecendo o maior bem que possuíam: a delicadeza do seu perfume.
M. Amélia Ajú P.
03 – 02 - 2014
Obrigada. Beijinho.