... de Jorge Luis Borges
EL SUR
Desde uno de
tus patios haber mirado
las antiguas
estrellas,
desde el
banco de
la sombra
haber mirado
esas luces
dispersas
que mi
ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar
en constelaciones,
haber
sentido el círculo del agua
en el
secreto aljibe,
el olor del
jazmín y la madreselva,
el silencio
del pájaro dormido,
el arco del
zaguán, la humedad
-esas cosas,
acaso, son el poema.
Desde há muito que admiro este escritor, ensaísta, poeta e também tradutor. Argentino, de Buenos Aires. Viveu entre 1899 (24 de agosto) e 1986 (14 de junho).
Borges e a escrita. Reflexões nítidas e que bem compreendo.
O Livro
Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente,
o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são
extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a
espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma
extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de
Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também
algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de
sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado?
Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que
transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter
o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar
de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de
sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas
para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar
sabedoria.
in "Ensaio: O Livro"