...foi assim que Siddharta deixou a casa do pai e partiu.
Este livro foi-me oferecido há muitos anos. Lembro-me bem por quem. Li-o e gostei. Interpretei-o à minha maneira. Agora voltei a pegar nele e a reler algumas partes. Não que eu esteja à procura do sentido da minha vida, ou pelo menos é assim que penso. Mas todas as metáforas e imagens deste livro fazem refletir.
Aqui fica uma passagem:
(...) Siddharta entrou na câmara onde estava o seu pai, sentado sobre uma esteira de ráfia; colocou-se atrás de seu pai e ficou de pé, até este sentir que alguém estava atrás dele. Falou o brâmane:
- És tu, Siddharta? Diz, então aquilo que tens para dizer.
Disse Siddharta:
- Com a sua permissão, meu pai. Vim para te dizer que é meu desejo deixar a tua casa, amanhã, e juntar-me aos ascetas. Tornar-me um samana, esse é o meu desejo. Espero que o meu pai não se oponha.
O brâmane ficou silencioso, permaneceu silencioso por tanto tempo que na pequena janela as estrelas se deslocaram e a sua configuração se alterou, antes que o silêncio na câmara chegasse ao fim. O filho permaneceu de pé, com os braços cruzados, mudo e imóvel, o pai permaneceu sentado sobre a esteira, mudo e imóvel, e as estrelas cruzaram o céu. Então o pai falou:
- A um brâmane não fica bem proferir palavras bruscas e coléricas. Mas a indignação move o meu coração. Não quero ouvir tal pedido uma segunda vez da tua boca.
Lentamente, o brâmane ergueu-se; Siddharta continuava silencioso e de braços cruzados.
- Por que esperas? - perguntou o pai.
Disse Siddharta:
- Tu o sabes.
Indignado, o pai saiu da câmara. Indignado, dirigiu-se ao seu leito e deitou-se.
Uma hora mais tarde, porque o sono não vinha aos seus olhos, o brâmane levantou-se, caminhou para trás e para diante, saiu da casa. Olhando através da pequena janela da câmara viu Siddharta, de pé, com os braços cruzados, imóvel. O seu trajo claro resplandecia de brancura. Com o coração inquieto, o pai voltou para o seu leito.
Uma hora mais tarde, porque o sono não vinha aos seus olhos, o brâmane voltou a levantar-se, caminhou para trás e para diante, saiu para a frente da casa, viu a lua a nascer. Olhando através da janela da câmara viu Siddharta, imóvel, com os braços cruzados, a luz da lua reflectida nas suas canelas nuas. Com o coração apreensivo, o pai regressou ao seu leito.
E voltou uma hora mais tarde, e voltou duas horas mais tarde, olhou através da pequena janela, viu Siddharta de pé, à lua, sob as estrelas, nas trevas. E voltou a cada hora que passou, silencioso, olhou para a câmara, viu o homem de pé, imóvel, encheu o seu coração de ira, encheu o seu coração de inquietação, encheu o seu coração de medo, encheu-o de dor.
E na última hora da noite, antes do início do dia, voltou, entrou na câmara, viu o jovem de pé, que lhe pareceu grande e distante.
- Siddharta - disse ele -, porque esperas?
- Tu o sabes.
- Quererás tu esperar em pé, até chegar o dia, a tarde, a noite?
- Esperarei, de pé.
- Ficarás cansado, Siddharta.
- Ficarei cansado.
- Adormecerás, Siddharta.
- Não adormecerei.
- Morrerás, Siddharta.
- Morrerei.
- E preferes morrer, a obedecer a teu pai?
- Siddharta obedeceu sempre a seu pai.
- Estarás disposto a renunciar ao teu propósito?
- Siddharta fará o que o seu pai lhe disser.
O primeiro brilho do dia caiu na câmara. O brâmane viu que os joelhos de Siddharta tremiam ligeiramente. Mas no rosto de Siddharta não viu qualquer tremor; ao longe brilhavam os seus olhos. Então o pai compreendeu que Siddharta já não se encontrava junto a ele, na sua terra, que já o tinha deixado.
O pai tocou o ombro de Siddharta.
- Tu queres - disse ele -, ir para a floresta e ser um samana. Se encontrares a bem-aventurança na floresta, volta e ensina-me a bem-aventurança. Se encontrares a desilusão, então volta e voltaremos a oferecer sacrifícios aos deuses, juntos. Agora vai beijar tua mãe, diz-lhe para onde vais. Para mim está na hora de ir ao rio fazer as primeiras abluções.
(...)