sábado, 28 de julho de 2012

Verão...

... sinónimo de férias. Julho está a chegar ao fim e não queria deixar de recordar, neste  blog, esta época do ano. 
São sempre um período pelo qual ansiamos para descansar. Cada um "descansa" como melhor lhe apetece, gosta ou pode. Eu cá gosto de "ir fazendo" férias, isto é: gosto de as repartir ao longo do ano para que assim haja sempre um motivo para fazer planos de "descansar". 
Descansar não passa de um verbo.Significa repousar. Ora bem... se repousar significa não fazer nada, então eu não descanso. Então eu não tenho férias!!! Mas, se repousar/descansar significa parar temporariamente de fazer a rotina a que estamos sujeitos para sobreviver (quer seja trabalhar quer seja estudar), aí sim: tenho férias. E gosto!!! 
Ao longo do tempo, as minhas férias têm sido diferentes. Dantes, eram boas e agora também.Dantes, eram na praia (dois ou três maravilhosos meses); agora são essencialmente a viajar. É curioso que já não gosto de passar uma semana inteira na praia. Cansa-me. Gosto de ir aos fins de semana. Mas na adolescência tinha férias fantásticas na praia. E tínhamos os nossos rituais. 
A minha mãe e avó costumavam arrendar uma casa na praia. Tinha de ser grande, porque éramos muitos: os meus pais (o meu pai só um mês...), os meus avós maternos e as primas. E o primo. E mais quem nos quisesse visitar. As praias de eleição eram: S. Martinho do Porto (e aqui recordo o caseirão enorme, onde os quartos eram enormes, as casas de banho enormes e... a louça era de dimensões muito maiores do que o habitual, e por isso nós dizíamos que estávamos na casa da Marquesa. Lá na nossa imaginação a Marquesa era: enorme!!!); Santa Cruz, onde a água era muito fria e quase sempre estava nublado pela manhã. Isso não era mau de todo: é que assim a minha avó não nos fazia levantar cedo para ir para a praia, que era "quando fazia melhor"...!!! Gostávamos de ir ao cinema à noite (fantástico: nas férias era permitido sair à noite!!!! Até à meia noite... Bem diferente de agora...) e ver filmes ao ar livre, projetados numa enorme tela. As cadeiras eram de madeira e o frio das noites em Sta. Cruz obrigava-nos a vestir uma "camisolinha". Por fim a família resolveu arrendar casa na Nazaré e para lá fomos vários anos seguidos. Era muito, muito bom. Quer eu quer as minhas primas temos as melhores recordações desse tempo. Tínhamos muitos amigos, alguns até acabaram por entrar na família (via casamento...) e nela continuam. Recordo os lugares, os  passeios até à Foz ou ao Sítio, os cheiros, os jogos... as gargalhadas... O verão era tão bom e longo... Agora é diferente, mas também é bom. Nasci em agosto, talvez por isso adore esta época.



sábado, 7 de julho de 2012

Gabriel García Márquez...

... parou de escrever. Certamente nunca o escritor colombiano desejou este fim: deixar o mundo da escrita. A vida atraiçoou-o com um estado de saúde frágil: demência (pelo menos esta a informação dada hoje pelos media). Triste estado para quem sempre usou o pensamento e a arte da escrita. Soube transmitir estados de espírito de uma forma autêntica e única no seu próprio estilo.

(...) Quando o tio se reformou, contra a sua vontade, por ordem dos médicos, Florentino Ariza começou a sacrificar de bom grado alguns amores dominicais. Ia fazer-lhe companhia no seu refúgio campestre, a bordo de um dos primeiros automóveis que se viram na cidade, cuja manivela de arranque tinha uma tal força de retrocesso que deslocara o braço ao primeiro condutor. Falavam durante muitas horas, o velho na rede com o seu nome bordado a fio de seda, longe de tudo e de costas para o mar, numa antiga fazenda de escravos, de cujos terraços floridos de astromélias se viam de tarde as cristas nevadas da serra. Fora sempre difícil para Florentino Ariza falar com o tio de qualquer outro assunto que não fosse a navegação fluvial e continuou a sê-lo naquelas tardes demoradas, nas quais a morte foi sempre um convidado invisível. Uma das preocupações recorrentes do tio Leão XII era que a navegação fluvial não passasse para as mãos de empresários do interior vinculadas a consórcios europeus. "Este negócio foi sempre de gente com genica", dizia. "Se os peraltas o apanham, voltam a dá-lo de bandeja aos alemães." A sua preocupação tinha a ver com uma convicção política que gostava de repetir mesmo quando não vinha a propósito. (...)
in, O Amor nos Tempos de Cólera

Muitos foram os livros que Gabriel García Márquez escreveu. O Amor nos Tempos de Cólera foi um dos que mais gostei, assim como Cem Anos de Solidão (creio que este foi o primeiro que li...).




sexta-feira, 6 de julho de 2012

O que se diz...

... o que se faz.

Somos conhecidos como um povo simpático, amável, acolhedor, disponível, etc., etc., etc.. Sim, concordo: somos mesmo assim. É uma característica. 
Passamos na rua por outra pessoa e nem nos olhos a olhamos. Vamos com pressa. Temos pressa de chegar. Às vezes nem se sabe bem onde... Então, nem  nos damos conta daquele que passa ao nosso lado. Estará a precisar de ajuda? De uma palavrinha...? Não sabemos porque temos pressa. Mas... se se trata de um estrangeiro a olhar para um mapa ao invés... Eis que é o momento de ajudar. Somos prestáveis. Aproximamo-nos e "toca" de ajudar. Por vezes nem se domina a língua do dito estrangeiro, mas faz-se mímica e... grita-se/ berra-se a informação. Como se o estrangeiro só percebesse se se gritar... Estes solícitos portugueses confundem não compreensão da nossa língua com um problema auditivo da parte do estrangeiro. 






Mas há mais "tiques" deste povo tão solícito, disponível, simpático, amigo...blá blá blá!!!

Quando dois supostos amigos se encontram, por casualidade, ao fim de algum tempo, cumprimentam-se esfuziantemente. Contam o que têm feito (convém que sejam sempre as melhores coisas...) e logo vão dizendo que estão com pressa e que "Um destes dias ligo-te para combinarmos qualquer coisa..." É certo e sabido que este dia ficará adiado por tempo infinito... Criam-se expectativas no outro como desculpa ou para se despacharem. E lá se vai...com o sentimento de "dever cumprido".





quinta-feira, 5 de julho de 2012

Miguel Torga

Liberdade


— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 
— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome.    

 in 'Diário XII' 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Dois dedos de conversa...

... na loja do bairro.
Ontem fui à mercearia do Sr. V.. Entrei e lá estava ele sentado no banquinho por trás do balcão. Conforme entrei e lhe dei as boas tardes, ele respondeu e ficou na mesma. Olhar vago e calmo. Como ele: sem pressas. Perguntei-lhe pela D. L. e pela neta, ao que me respondeu, com um brilho nos olhos, que a criança estava muito engraçada, já tenta falar e mais isto e mais aquilo, mas... sobre a D. L. (a mulher...) nada disse. Voltei a perguntar (porque pensei que ele não tinha ouvido) pela D. L. e ele... lá disse que ela andava com umas dores nas costas, tosse, cansada, mas... estava bem. Ok, pensei eu...
Como a conversa não saía dali, decidi pedir o que lá me levava. Ele... nada! Continuava sentado, a olhar calmamente para a montra em frente onde estavam os queijos e enchidos. Perguntou-me pela família e... sempre sentado. Sem qualquer manifestação de quem me queria despachar. Não. Ele queria antes conversar. Dei-lhe mais algumas "informações" e começou a falar do calor... depois dos aumentos que "vêm aí". E eu que estava cheia de pressa, não encontrava coragem para cortar o desenrolar das conversas sucessivas. Ele continuava calmamente, sorrindo e falando...


Esta não é a mercearia do Sr. V., mas podia ser... a dele está um pouco desarrumada, porque ele gosta de estar à conversa e de pensar (segundo a mulher diz).

Foi aquele momento que me fez escrever este post. Lembrei-me de quantas lojas de bairro, como esta, têm desaparecido. Lojas onde se ia e se cumprimentava pelo nome. Sorria-se e até se conheciam alguns gostos dos fregueses. Lembro-me das drogarias (ainda consigo sentir o cheiro...) onde se vendia uma panóplia de coisas. Por vezes até aquilo que não sabíamos onde ir encontrar... na drogaria havia! Depois, as retrosarias, as lojas de tecidos para se mandar fazer o vestido. 


Enfim, havia lojas. Hoje onde é que vamos? Ao supermercado. Quase tudo se vende lá. Entramos calados; não perguntamos o preço; servimo-nos sem demoras;  chegamos à caixa (onde muitas das vezes a (o) empregada(o) nem olha para nós quanto mais cumprimentar); dão-nos os sacos e nós... enfiamos as coisas lá dentro e saímos. Só sabemos o nome da(o) empregada(o) pela identificação que tem escarrapachada no uniforme.