... parou de escrever. Certamente nunca o escritor colombiano desejou este fim: deixar o mundo da escrita. A vida atraiçoou-o com um estado de saúde frágil: demência (pelo menos esta a informação dada hoje pelos media). Triste estado para quem sempre usou o pensamento e a arte da escrita. Soube transmitir estados de espírito de uma forma autêntica e única no seu próprio estilo.
(...) Quando o tio se reformou, contra a sua vontade, por ordem dos médicos, Florentino Ariza começou a sacrificar de bom grado alguns amores dominicais. Ia fazer-lhe companhia no seu refúgio campestre, a bordo de um dos primeiros automóveis que se viram na cidade, cuja manivela de arranque tinha uma tal força de retrocesso que deslocara o braço ao primeiro condutor. Falavam durante muitas horas, o velho na rede com o seu nome bordado a fio de seda, longe de tudo e de costas para o mar, numa antiga fazenda de escravos, de cujos terraços floridos de astromélias se viam de tarde as cristas nevadas da serra. Fora sempre difícil para Florentino Ariza falar com o tio de qualquer outro assunto que não fosse a navegação fluvial e continuou a sê-lo naquelas tardes demoradas, nas quais a morte foi sempre um convidado invisível. Uma das preocupações recorrentes do tio Leão XII era que a navegação fluvial não passasse para as mãos de empresários do interior vinculadas a consórcios europeus. "Este negócio foi sempre de gente com genica", dizia. "Se os peraltas o apanham, voltam a dá-lo de bandeja aos alemães." A sua preocupação tinha a ver com uma convicção política que gostava de repetir mesmo quando não vinha a propósito. (...)
in, O Amor nos Tempos de Cólera
Muitos foram os livros que Gabriel García Márquez escreveu. O Amor nos Tempos de Cólera foi um dos que mais gostei, assim como Cem Anos de Solidão (creio que este foi o primeiro que li...).
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