sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fernando Pessoa e uma poesia "chamada de" ocultista

Meu pensamento é um rio subterrâneo
Meu pensamento é um rio subterrâneo. 
Para que terras vai e donde vem? 
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem 
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas 
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes 
Habitando a distância de ermos montes 
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto-o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...

E pra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...

Sem comentários:

Enviar um comentário